quinta-feira, 24 de junho de 2010

A bola e a bala

De quatro em quatro anos somos brasileiros. Bandeirinhas, faixas, pôsteres, ruas pintadas e lojas tematizadas por toda parte - a comoção é geral. Dia de jogo da seleção vira feriado nacional. São todos unidos e concentrados, acompanhando a saga dos batalhadores em campo. O futebol nada mais é do que uma válvula de escape para a necessidade de guerrear.

São onze homens: alguns no ataque, outros no contra-ataque, outros no meio do campo (de batalha), outros na defesa. São tiros (de meta)e artilheiros.

A bola e a bala.

Violência velada.

Não gosto de futebol, mas reconheço que seja uma forma saudável de externar a avidez pela competição. Nutrir raiva por outros países e reafirmar o seu patriotismo através da bola (e não da bala) é, de fato, razoavelmente saudável e economicamente interessante. Certamente, a indústria do futebol não é tão rentável quanto a indústria bélica, mas desempenha um papel considerável na política e cultura de países como Brasil e Argentina.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O berço

Acordou por volta das oito da manhã. A luz penetrou suas pálpebras gradualmente. Abriu os olhos e, desorientada, buscou reconhecer a cama nada familiar, que suportava seu corpo alquebrado. Ouvia um choro incessante ao fundo. Um choro de recém-nascido. Uén. Uén. Dali a alguns minutos, Doutor Jarbas adentra a sala com um bebê no colo. Uén. Uén.

As imagens embaralharam-se em sua cabeça vertiginosamente. Cerrou os olhos. Ao abri-los novamente, viu-se na sala de sua casa, e seu pai embalava o bebê de plástico no colo, dizendo: “Sua filha nasceu! Tome conta dela!”. A bebê de plástico, de cerca de quarenta-e-cinco centímetros, abria a boca mecanicamente – Uén! Uén! Havia tinta vermelha em sua barriga.

Ela largou o bebê em cima da bandeja cirúrgica, em estado de choque. Subitamente, tomada por um senso de responsabilidade maternal, se levantou e começou a gritar: “Ela precisa de um berço! Ela não pode ficar na bandeja.” A bandeja representava um grande descaso com aquele bebê de plástico inofensivo, pequeno, que berrava por atenção. Uén! Uén!

O berço foi providenciado. Tão logo o berço deu lugar à bandeja infame, surgiu uma questão onomástica. A mãe dizia: “Ela precisa de um nome. Ela não pode ficar sem nome.” Não pode ficar sem berço, nem nome. Uén...uén. “Melissa! O nome dela será Melissa!”. A mãe discordou: “Não gosto. Não me parece apropriado. Melissa é nome de sandália. Melissa é nome de meretriz ou travesti. Outro!”.

Pensou, pensou. Ficou sem resposta. Resolveu suspender a decisão. Resolveu aguardar mais alguns dias para ir ao cartório. Não registrou o nome nem o berço.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Atrás do portão

"(...) a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?" (Kundera, Milan. A Insustentável Leveza do Ser.)

Os grilhões dos engradados resistem por oferecerem uma leveza peculiar: atendem à necessidade de esquecer. Esquecer que se é, esquecer que se faz, esquecer os pingos do sol e os raios da chuva. Esquecer o peso da vida cotidiana, esquecer que se esquece de esquecer.

A leveza do levedo, que no fundo pesa, nos leva a socializar os absurdos calados, que se deixam ofuscar pela perspicácia de nefastos discursos envoltos por uma película de gravidade alarmante. O levedo leva os resquícios, esculpindo a lápide dos ofícios.

O sopro do desequilíbrio lança ao ar. É então, que o abandono às sensações é experimentado em sua forma plena: na leveza do peso do corpo abatido após uma queda-livre.

sábado, 27 de março de 2010

Tracking Lies

Tricks and delusions make up the story
What's left's confusion and I'm only sorry

You say one day I'll learn to give it away
If there's hell to pay I won't be there

Time goes by as we track lies
Easy to say "hi", hard to say "goodbye"

Time to decide whether to stay dead or alive

Blow up your mind, where's your disguise?
Please don't try, don't try to hide

You say one day I'll learn to give it away
If there's hell to pay I won't be there

Time goes by as we track lies
Easy to say "hi", hard to say "goodbye"

(Soumn & Lenina Z)

link para download:http://cid-56b85b3be1cd274c.skydrive.live.com/self.aspx/grava%C3%A7%C3%B5es/Tracking%20Lies%20-%20Soumn%20and%20LeninaZ.mp3

obs1: ainda não foi mixada

obs2: jr., não fique irritado! :P

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Zona Real

A Zona Norte é a Real Zona -- ganha em todas as zonas de ataque.

Zona de poluição, zona de de pobreza, zona de risco, zona de transporte, zona cultural.

Cabelos zoneados, roupas zoneadas, comportamento zoneado.

A Norte é Zona por excelência.

O Rio é a melhor zona do mundo e a Norte, melhor zona do Rio.

E que venha o carnaval das escolas das zonas. Zona no pé e zona na cabeça.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ausência

A ansiedade nutria os dias. Envolvia uma espera que explodia em pensamentos, sensações e vida iminente. O estômago reclamava, mas o sangue pulsava, ritmando as ações cotidianas e despretensiosas.
Era o impulso nervoso dos dentes rangidos e unhas roídas que impelia ao movimento anti-inércia.
A busca nutria as horas. Momentos perdidos na vaguidão do alheamento auto-induzido. A cabeça questionava, mas o corpo, alerta, se punha a fazer—qualquer coisa.
Era o fluxo criativo incessante, dos calos nos dedos e das cordas vocais rompidas, que berravam paixões ocultas nas entranhas.
Era energia. Era sopro. Era essência.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uns

Com quantos nós se faz um nós?