domingo, 8 de novembro de 2009

Papel

Queria ser mestre. Mestre em qualquer coisa – pela simples necessidade de acumular papéis de toda sorte.

Passamos a vida acumulando papéis: certidão de nascimento; cédula de identidade; título eleitoral; certificado; diploma.

Tudo em vista do papel mor – a cédula de dinheiro.

Seria mais um para a longa lista de títulos inúteis, que poucas notas me trouxeram (salvo aquelas referentes às diversas provas às quais me submeti).

A bem da verdade, não havia sequer um bom motivo para isso, mas desde cedo ouvimos aquelas frases-chavão: “Você precisa...”; “Você tem que...se quiser”; “Se você não...você não...”

Sim, é no intuito de atender a comandos alheios que acabamos buscando o tal papel e acabamos desenvolvendo um papel que não é exatamente o nosso.

Porém, por vezes, o inconsciente boicota nossas aventuras extravolitivas, e imprime a marca do desejo contrariado nas moções.

Os últimos resultados refletem esse processo.

Digo adeus aos papéis que me rejeitaram numa reação à minha rejeição primeira. Com eles vão-se embora os planos condicionados à tal situação.

Abro as portas para a surpresa utópica do presente diário.

sábado, 24 de outubro de 2009

Photoshop na Berlinda

O Ministério da Saúde adverte: Photoshopar imagens causa danos mentais.

(Imagem de uma menina anoréxica,em foco, com olheiras profundas e cabelos emaranhados. A mãe em segundo plano, com cara de choro.)

"Europa quer proibir photoshop

"(...) Segundo as propostas desses legisladores, anúncios contendo fotos alteradas de modelos seriam obrigados a trazer mensagens revelando o emprego de efeitos digitais.

'Quando adolescentes e mulheres olham para tais fotos nas revistas, elas acabam se sentindo infelizes consigo mesmas', disse Jo Swinson, parlamentar britânica do Partido Liberal Democrata.

(...)

O partido quer banir completamente as fotos alteradas em anúncios destinados a crianças com menos de 16 anos.

Sex, 02 Out - 00h16"

(http://br.tecnologia.yahoo.com/article/02102009/25/tecnologia-noticias-europa-quer-proibir-photoshop.html)


(Dove Campaign for Real Beauty)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Citando

"(...)com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa.
(...) nas sociedades de controle nunca se termina nada, (...)"

(Gilles Deleuze, "Conversações")

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Na falta do Nirvana...

Um misto de Nirvana + Jimmy Hendrix + Led Zeppelin (ou Sabbath) + letras em italiano. Falei isso pro Alberto. Ele não concordou, mas também não discordou.



Atenção para o "tchacky, tchacky" (1:05)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Juramento

Pontos luminosos no céu do hoje.
Pânico.
O vulcão, aparentemente inativo, entrou em erupção.

domingo, 26 de julho de 2009

Julho

Carnaval julino sem caipira. Confete festivo, porém, discreto. Cegueira consciente. Morte na entrega. Doença pós-somática.
Samba de quadrilha. Frio sem manta. Calor com manta ― de gordura esquálida. China em ação: o céu explode e o ataque é massivo.
Bom-bar-de-a-da. Doses homeopáticas e cavalares de palavras pingadas no café, roubando a densidade do negro. Branco mais preto dá cinza,mas leite com café dá pardo. E cinza mais verde dá o quê?

domingo, 14 de junho de 2009

Calo

"Mas onde estavam as palavras, onde estavam aquelas pequenas luxúrias que trouxera comigo? E onde estavam aqueles devaneios e onde estava o meu desejo e o que acontecera com a minha coragem e por que eu ficava sentado rindo tão alto de coisas que não eram engraçadas?
(...)
O quarto estava eloqüente com a sua partida."
(John Fante, Pergunte Ao Pó.)

Desde que ela finalmente partiu, o silêncio ficou eloqüente. As imagens são muitas e o fluxo de informação é contínuo. Sobrou uma enxurrada de sentimentos indizíveis — a catatonia que sucede o estado de choque.

Desde que ela finalmente partiu, levou consigo o último elo que teimava em resistir. Era precisamente a dor que nos conectava. O peso da presença à distância se resumia ao tamanho dos danos trocados.

Era o calo que lembrava. Era o calo que dizia. Era o calo que doía. Era o calo que mantinha.

Sem mais dor, sem mais urros. Sem mais calo. Me calo.